sexta-feira, 6 de junho de 2014

O horror, o horror...

Vilnius, a capital da Lituânia, vista da Gediminas Hill
“Eles mataram as mulheres com quem minha mãe costumava ir comprar farinha e sal; eles mataram os meninos com quem eu trocava figurinhas e pombos; eles mataram os velhos homens de barba para quem meu pai dizia que ia nos entregar se a gente se comportasse mal.”
Vyautas P. Bloze, Nenoriu!


Chego em Vilnius no começo de uma manhã amena e ensolarada, depois de uma longa viagem de ônibus vindo de Varsóvia (Polônia), um trajeto de meros 390 km que levou inacreditáveis nove horas para ser cumprido, durante a noite. Capital da Lituânia, o mais austral dos três países bálticos, a cidade tem pouco mais de 500 mil habitantes e é famosa pelo centro barroco, em boa parte reconstruído depois da destruição da Segunda Guerra Mundial.
Vilnius é a minha porta de entrada para o Báltico - de lá eu pretendia seguir para os outros dois vizinhos, pela ordem Letônia e Estônia, todos atualmente membros da União Europeia. Eu imaginava encontrar culturas semelhantes em países tão próximos, pouco extensos e fronteiriços, mas não foi nada disso. Três línguas totalmente distintas, comidas, hábitos e atitudes idem. O que realmente os três têm em comum é um passado histórico recente cruel, em que se viram indefesos e entregues à própria sorte no jogo de interesses das grandes potências do século XX, resultando em uma dupla ocupação que se estendeu por mais de 60 anos.
A divisão do leste entre nazistas e soviéticos
O destino dos países bálticos começou a ser definido em uma canetada, em Moscou, na madrugada de 24 de agosto de 1939. Nessa noite os ministros do Exterior alemão e russo assinaram o acordo concebido por Hitler e Stalin, o Tratado Ribbentrop-Molotov, que oficialmente foi apresentado como um acordo de não-agressão entre os dois gigantes, mas em suas cláusulas secretas e não divulgadas dividia a Europa em duas áreas de influência, nazista e soviética. Pelo pacto, a Polônia deixaria de existir, o oeste ficaria para o Reich e o leste para os russos. A Finlândia, a Besssarábia (hoje um pedaço da Romênia) e as três nações do Báltico também cairiam sob a “influência” soviética.
Em setembro e outubro, a União Soviética exigiu de Lituânia, Letônia e Estônia que assinassem um “Pacto de Assistência Mútua”, que permitia aos soviéticos instalar bases militares nos três países, o primeiro prelúdio para a anexação. O segundo sinal visível foi a repatriação da população de origem germânica, também prevista no tratado nazi-soviético, que ocorreu em outubro. A invasão russa para controlar os bálticos veio mesmo em junho de 1940, rápida e completa. Em um ano começariam as deportações para a Sibéria dos chamados “inimigos da classe operária”, assunto que merece e terá um post só para si...
As coisas ficariam mais complexas em 1941, quando Hitler decide romper o pacto com Stalin e invadir o território soviético, na Operação Barbarosa, que começa no dia 22 de junho. A Blitzkrieg (guerra-relâmpago) pega o Exército Vermelho totalmente despreparado e em poucos dias as tropas nazistas ocupam os três bálticos, anexados ao Reich. Quando chegaram a Vilnius, no dia 24 de junho, eles encontraram uma base militar soviética em construção, 10 quilômetros a sudoeste da região central, em Paneriai. A instalação estava sendo preparada para ser um depósito de combustível para tanques e havia sete grandes fossos já escavados em meio à floresta, três com 34 metros de diâmetro e 9 metros de profundidade, outros quatro com 12 metros de diâmetro e três metros de fundura. A base também era servida por uma linha ferroviária. Para os alemães, aquilo tudo pareceu ter vindo a calhar.
Judeus mudando-se para gueto de Vilnius, foto do Museu do Holocausto
No começo da década de 1940, Vilnius era um dos principais centros da comunidade de origem judia na Europa Oriental, chamada de “Jerusalém da Lituânia”. A população judaica do país era de 220 mil pessoas, quase 10% do total. Os alemães viram ali a oportunidade de testar a chamada “Solução Final”.
Entro no Museu do Holocausto de Vilnius e sou recebido por uma gentil senhora, que falando um inglês carregado do sotaque lituano me entrega um audio guide e explica a exposição. Logo na entrada, me deparo com o relatório escrito por Karl Jäger, SS-Standartenfuhër e chefe do Einsatzkommando 3, responsável por “lidar” com os judeus lituanos.
O relatório é datado de 1 de janeiro de 1941 e assinado por Jäger, ou seja, pouco mais de seis meses depois da chegada dos alemães à capital lituana. Ele escreveu aos seus superiores em Berlim: “Hoje eu confirmo que nosso objetivo de resolver o Problema Judeu para a Lituânia foi atingido pelo EK3. Na Lituânia não há mais judeus, à parte dos trabalhadores e suas famílias. Desse total: Em Schaulen (4.500); em Kauen (15.000); em Vilnius (15.000). Eu também pretendia matar esses trabalhadores judeus e suas famílias, mas encontrei forte resistência por parte da administração civil (Reichkomissar) e a Wermacht (Exército Alemão) e instruções foram dadas para que esses judeus e suas famílias não fossem executados”.
A “solução do Problema Judeu” em Vilnius começou para valer em setembro de 1941, quando os alemães decidiram concentrar toda a população judaica da cidade (cerca de 40 mil pessoas) em dois guetos, um maior e um menor. No mês seguinte começaria a evacuação, primeiro as crianças e velhos, que não tinham capacidade de trabalhar.
Letreiro na entrada de Panierai, onde era a entrada do campo
É uma sensação estranha caminhar pelas ruas em que ficavam os dois guetos judeus de Vilnius - na verdade foram em grande parte destruídas pelos bombardeios russos e depois reconstruídas, no mesmo padrão barroco anterior. Hoje o que se vê são cafés, restaurantes, lojas de grife, lanchonetes de fast food, no centro da parte turística da capital. Mas a verdadeira sensação estranhar viria no dia seguinte, quando resolvi visitar Paneriai...
O acesso é extremamente simples, toma-se um trem na estação central de Vilnius, cuja passagem custou o equivalente a 1 euro, e em dez minutos chega-se a um sobrado de um amarelo esmaecido em frente a um depósito de vagões de carga, que faz o papel de estação ferroviária na vila. Não há placas ou indicações, você segue por uma rua espremida entre os trilhos e a floresta, com algumas casas de madeira no meio, uma caminhada de uns dez minutos.
Não há portão ou cobrança de ingresso, mas um grande letreiro marca o local em que tudo o que havia a fazer era esperar pela morte, em lituano: Paneriu Memorialas. Peguei o trem das 9h10 e quando chego lá não há uma alma (pelo menos visível) por perto. Uma trilha bem aberta leva aos diversos sítios do memorial – eu tinha um mapa explicativo que a senhora do Museu do Holocausto me dera.
As primeiras execuções em Paneriai ocorreram em 11 de julho de 1941, quando 348 judeus e prisioneiros de guerra soviéticos foram trazidos da prisão de Lukiskes, em Vilnius. O campo era considerado perfeito para a tarefa pelos alemães: relativamente perto da capital, mas ao mesmo tempo suficientemente escondido no meio da floresta para não chamar muito a atenção - além do que as covas para enterrar as vítimas já tinham sido parcialmente escavadas pelos soviéticos. As mortes eram “supervisionadas” pelos SS, mas a “equipe de execução” era formada por lituanos, russos e poloneses.
Fosso com pedras em homenagem aos mortos, ao estilo judeu
Nesse período os alemães ainda não tinham chegado ao modelo final que ficaria notório nos campos de Auschwitz e Birkenau, com câmaras de gás disfarçadas de chuveiros coletivos e crematórios industriais. Em Paneriai os assassinatos eram executados a bala. Para economizar munição, por vezes as vítimas eram alinhadas, para que a mesma bala fosse suficiente para matar mais de uma pessoa. Outras vezes usava-se a coronha do fuzil.
É difícil descrever o que se sente ao caminhar pelo meio da floresta, sozinho, sabendo o que se passou por lá. Para deixar tudo pior, quando paro para tirar uma foto de um dos fossos (hoje transformado em memorial), em que os soldados tomados como prisioneiros do Exército Vermelho eram deixados para morrer de fome, uma estranha interferência arroxeada toma a tela do celular – como se fosse uma daquelas linhas de estática que aparecem quando um telefone móvel toca perto de um computador. E não foi a única vez. Em outro dos fossos, a interferência se repetiu.
Mas tinha mais... Pelo meio das trilhas que conectam os fossos, eu me deparei com mais de um deles. Pequenos caramujos esbranquiçados, que pareciam albinos, arrastavam-se penosamente pelo asfalto, deixando atrás de si uma trilha também branca, como se parte do próprio corpo deles fosse ficando pelo caminho para conseguir se locomover por aquela superfície áspera.
Para os que acreditam em karma, de acordo com as suttas indianas há duas formas de um ser humano renascer como um animal: desenvolver a forma de pensar de um deles ou acumular uma quantidade suficiente de karma ruim. A segunda opção me pareceu largamente preenchida pelos antigos comandantes de Panierai...
Um dos muitos caramujos em Paneriai, ou seriam...
Quando a maré da guerra se inverteu e os alemães se deram conta de que a derrota era uma questão de tempo, começaram a acelerar o extermínio em massa dos judeus e outras minorias que ainda restavam e ao mesmo tempo tentaram destruir as provas para encobrir o genocídio. Em 1943 o pequeno gueto de Vilnius, o último ainda em pé, foi liquidado em Panierai (estima-se em 7.000 pessoas). E em março de 1944, já com o Exército Vermelho próximo, os dois campos de trabalhos forçados com judeus ao redor da capital também foram eliminados (outras 3.000 pessoas).
Em abril de 1944, os nazistas aceleram as ações para eliminar provas e concentram uma equipe de 80 judeus em Panierai para isso – era a chamada “Brigada dos Queimadores”. As tarefas desses pobres eram divididas em grupos: uma parte cortava madeira, outra cavava as fossas e um terceiro grupo usava ganchos de ferro de um metro e meio para fisgar os corpos e retirá-los da terra. Um quarto grupo, dividido em duplas, carregava os corpos (ou partes deles) em macas a um outro fosso, onde uma rampa de madeira tinha sido especialmente montada para que eles subissem e jogassem os restos humanos em camadas sobre a fogueira, que queimava sem parar. Dois prisioneiros eram encarregados de alimentar o fogo ininterruptamente. Todos eram mantidos com as pernas presas por correntes, para evitar que fugissem.
Réplica da escada usada pela "Brigada dos Queimadores"
Em meio a esse terror, a “Brigada de Queimadores” conseguiu cavar um túnel de 32 metros, trabalhando à noite durante 76 dias, entre o bunker onde eram confinados e a floresta. Divididos em grupos de dez, 44 deles conseguiram escapar na noite de 15 de abril de 1944, ainda presos pelas correntes entre as pernas, antes que os alemães percebessem e soassem o alarme.
Konstantin Potanin, um dos prisioneiros envolvidos na fuga, conta que eles conseguiram ultrapassar duas cercas de arame farpado, na escuridão da floresta, escapando de Panierai. “Parecia que o pior tinha passado, deixado lá atrás do arame farpado. Mas um desafio a mais esperava a gente: minas começaram a explodir debaixo dos nossos pés – o campo da morte era minado por quase todos os lados. E agora as minas cortavam ao meio aqueles que tinham escapado do inferno. A sorte estava comigo e eu escapei das minas.”
Ao todo, 12 da “Brigada dos Queimadores” conseguiram escapar com vida de Panierai – outros 32 morreram na tentativa. No Panierai Memorial Museum a estória é contada em detalhes, inclusive com fotos de quatro dos sobreviventes, primeiro no local do campo, logo após o fim da guerra, e depois três deles reunidos e já velhinhos, em Israel.
Os historiadores assumem que cerca de 100 mil pessoas foram exterminadas no campo, sendo 70 mil delas judeus. Em toda a Lituânia, ao final da Segunda Guerra Mundial, apenas 20 mil dos 220 mil judeus que ali viviam sobreviveram – e só metade deles permaneceram no país depois de 1946. Se o pior tinha passado para os judeus com a derrota nazista, o período de ocupação soviética seguiu amargo.
Escadaria de Taurakalnis, construída originalmente com túmulos judeus
Na tentativa de “sovietização” dos países bálticos, os judeus sobreviventes eram vistos pelo poder como um entrave, uma população com hábitos “não-socialistas” que precisava ser assimilada. Havia mais de 100 sinagogas só em Vilnius antes da guerra, mas hoje só restou uma, a Choral Sinagogue – foi usada pelos alemães como um depósito de medicamentos durante a guerra. Com a chegada dos russos, a memória do Holocausto judaico foi reprimida e até os antigos cemitérios judeus que existiam ao redor da capital foram desmontados, as lápides dos túmulos usadas como material de construção para erguer novos edifícios no estilo soviético.
No centro de Vilnius, as escadarias de pedra que cercam o parque em Taurakalnis (algo como Monte Tauras, em lituano), foram construídas com essas lápides. É duro imaginar a tristeza dos sobreviventes ao pisar sobre os degraus onde os nomes em hebraico dos antepassados ainda eram visíveis, em relevo. Atualmente, depois do fim da dominação soviética, as pedras foram substituídas.
Poderia se imaginar que as coisas iam melhorar para a população báltica com o fim da guerra, mas o problema era que os russos estavam chegando... Aliás, chegando não, retornando, depois do curto período de dominação entre 1939 e 1941. A nova ocupação seria bem mais longa. Isso eu veria não só em Vilnius, mas também em Riga, na Letônia, e em Tallinn (Estônia), meus próximos destinos.

Choral Sinagogue, a única que restou das 100 que havia em Vilnius
Logo na entrada do Museu do Holocausto, em Vilnius, um poema me recebeu, e reproduzo aqui, em tradução livre:

"Lembre-se da Catástrofe do povo de Israel, sim, lembre-se da sua luta e sua morte, vá e pesquise...
E faça isso em nome dos que morreram. E deixe a memória da Catástrofe ser o sal do seu sangue, uma parte indispensável da sua carne e de seus ossos.
Cerre os dentes e lembre-se! Lembre-se quando for comer! Lembre-se quando bebe! E quando você ouvir uma canção - lembre-se! E quando o sol brilhar - lembre-se! E quando a noite chegar - lembre-se!
E quando você construir uma casa, derrube uma parede e uma cidade em ruínas se mostrará no seu lugar.
E quando você arar um campo, erga uma pilha de pedras lá para honrar a memória de seus irmãos e irmãs que nunca chegarão à sua terra prometida.
Empreste um ouvido atento e ouça a narrativa da Catástrofe do povo judeu."
Mark Dvorzhetsky, Jerusalém of Lithuania, Strugle and Death.

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