quinta-feira, 29 de maio de 2014

Macedônia, à procura de uma identidade

Museu de Arqueologia, obra do "rebranding" de Skopje
"Can one move an empire as if it were a house?”*
3 Elegies for Kosovo, Ismail Kadare


Depois do Kosovo, a passagem pela fronteira macedônia, também por terra, foi bem mais tranquila – eu já conhecia a mecânica do processo e esperei calmamente pelo meu passaporte ser devolvido, já dentro da van. A chegada a Skopje, a capital do país, com 500 mil habitantes, é que causaria surpresa. Encontrei um canteiro de obras, com palácios e pontes em construção, os guindastes gigantes pipocando na região central. É que a Macedônia vive um processo de “rebranding”, um neologismo até em inglês, que dá nome à tentativa de mudar a imagem existente de um país. Eu nunca podia esperar que a Macedônia estaria atravessando uma situação parecida com a do Brasil...
O governo macedônio batizou de “Skopje 2014” a iniciativa de revolucionar a capital visualmente, erguendo nada menos que 20 novos edifícios e 40 monumentos, de gigantescas estátuas de bronze a um portal de mármore ao estilo do Arco do Triunfo parisiense. A ideia é criar uma imagem mais “clássica” da cidade, com o objetivo de atrair a indústria do turismo mundial e o capital financeiro sem fronteiras - aproveitando para reafirmar a própria visão da história em meio ao processo.
Os críticos da reforma urbana de Skopje fazem as mesmas observações ouvidas no Brasil, de que um país não se faz de monumentos, mas de investimento em saúde, educação, moradia etc. O custo das obras não é divulgado, mas estimativas avaliam em até 500 milhões de euros (R$ 1,5 bilhão) o valor total. É triste ver como até nisso nossos escândalos são maiores do que os dos outros... Com esse dinheiro eles vão construir 20 edifícios e 40 monumentos, enquanto só o Estádio Mané Garrincha, em Brasília, custou 384 milhões de euros (R$ 1,15 bilhão). Mas o assunto aqui é a Macedônia.
"Guerreiro a cavalo" e a bandeira macedônia, no centro da capital
Apesar de ser um país pequeno, com apenas 2 milhões de habitantes, a história macedônia é rica – e confusa, como quase tudo nos Balcãs. Quem colocou o nome da região no mapa foi Felipe II, um rei que submeteu os gregos entre 359 e 336 Antes de Cristo, dando início ao império que seu filho, Alexandre, o Grande, expandiria até a Índia nas décadas seguintes. Essa é a imagem que o governo nacional quer difundir, embora de maneira velada, para não aprofundar o conflito com os gregos...
No processo de “rebranding” de Skopje foi erguida uma enorme estátua de bronze de um homem barbado com o punho erguido, no lado norte do Rio Vardar, batizada apenas de “Guerreiro”. Bem na sua frente, do outro lado do rio, a uns 300 metros de distância, construíram outro monumento, um homem a cavalo, de espada em riste, como que respondendo à saudação do primeiro gigante – este nomeado simplesmente “Guerreiro a cavalo”. Não está escrito em lugar nenhum, mas todos na capital sabem que são respectivamente Felipe II e Alexandre, o Grande, montado no seu famoso cavalo Bucéfalo.
Roma submeteria os macedônios em 168 BC e a região, no meio de uma rota comercial importante entre Bizâncio e o Mar Adriático (a Via Ignatia) manteve suas cidades prósperas. Com a divisão do Império Romano em duas partes, a área ficou sob controle de Constantinopla e da Igreja Ortodoxa.
A Macedônia foi sérvia por quase 200 anos, até a Batalha do Kosovo (1389) decretar o domínio otomano nos Balcãs pelos próximos 500 anos. Cristãos se tornam cidadãos de segunda classe, embora os turcos permitissem aos macedônios que mantivessem sua cultura, com restrições a novas igrejas. São desse período as grandes construções turcas em Skopje, a Kamen Moste (Ponte de Pedra), os banhos turcos, uma série de mesquitas e a Carsija, o antigo bairro turco que fica ao norte do rio, uma parte da cidade que se mantém ao largo do “rebranding”.
Bit Pazar, na Carcija, traços vivos da herança turca
Em ruas estreitas e calçadas com pedras irregulares, casarões otomanos dividem espaço com pequenas lojas vendendo de tudo: jóias, tapetes, brinquedos antigos, ferros de passar a carvão, relógios de corrente e vestidos muçulmanos. No ar espalha-se o tentador cheiro dos kebapcis assando nas grelhas, pequenos bolinhos de carne do tamanho de um dedo cujo nome e a quantidade de unidades servidas por porção varia, dependendo do país balcânico. Em Skopje eles vêm em múltiplos de cinco, sete ou onze, acompanhados de pimentões verdes assados e pão.
No limite norte da Carcija ainda funciona o Bit Pazar, um mercadão ao estilo turco, praticamente uma feira coberta, com frutas, verduras, carne, queijos e afins anunciados como nos dias otomanos. No final do século XIX, com o declínio acentuado do Império Turco, surgem os movimentos de independência na Macedônia, com a consequente repressão, levando a uma série de massacres de camponeses no começo do século XX. Em 1912, Sérvia, Grécia, Bulgária e Montenegro declaram guerra à Turquia, no que se converte na Primeira Guerra Balcânica, lutada em sua maior parte em solo macedônio. Os turcos são expulsos, mas em seguida é a vez de a Bulgária entrar em combate contra seus antigos aliados – rapidamente derrotados, os búlgaros se associam a Alemanha e Áustria na Primeira Guerra Mundial e reocupam a Macedônia.
No final do conflito, o território macedônio é dividido entre a Grécia e o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (a chamada Iugoslávia Roialista). Durante a Segunda Guerra Mundial, os partisans de Tito lideram a resistência aos alemães e búlgaros, prometendo aos macedônios que o seguissem o status de república na futura Iugoslávia comunista, o que se confirma, a partir de 1946.
É das cinco décadas seguintes que datam os monstruosos blocos de apartamento ao estilo soviético ao redor do centro e na periferia de Skopje. A nacionalização da agricultura e indústria também não deixou saudade, mas sob o comando de Tito o país ganha sua primeira gramática oficial (em 1952) e a Igreja Ortodoxa Macedônia é criada (em 1967, no aniversário de 200 anos da abolição do Arcebispado de Ohrid pelos gregos, que continuam sem reconhecer a autoridade da versão macedônia do clero até hoje).
Madre Teresa e os trocadores de figurinha da Copa
Falando em religião, Skopje é a cidade natal de uma personagem emblemática para os católicos. Gonxha Agnes Bojaxhiu nasceu por lá, em 1910, em uma família de origem albanesa – esse era o nome da Madre Teresa de Calcutá antes de se tornar famosa pelo cuidado aos miseráveis da Índia. No centro da capital, no local em que ficava uma pequena igreja onde ela foi batizada, destruída pelo terremoto que arrasou a cidade em 1963, foi construído um memorial e pequeno museu em homenagem a ela. Quando cheguei por lá havia uma multidão em volta da estátua da Madre, que achei ser algum grande grupo de peregrinos – era na verdade um grupo de adolescentes trocando figurinhas da Copa do Mundo...
Depois de dois dias em Skopje, sigo rumo sul, em direção a Ohrid, uma cidade a 200 quilômetros de distância, à beira do lago de mesmo nome, na fronteira da Albânia, um dos mais profundos da Europa, com quase 300 metros em alguns pontos. O lago é habitado por uma espécie de truta ancestral, que nada por lá desde antes do último período glacial, 11 mil anos atrás – presente em quase todo menu de restaurante, na verdade a opção dever ser evitada, por estar em risco de extinção.
À beira do Lago, Ohrid concentra um pouco de tudo o que a Macedônia tem de melhor: montanhas nevadas, águas transparentes, casarões otomanos espalhados pelos morros, simpáticos e velhos carros do período comunista (os chamados yugos), além de uma coleção invejável de igrejas ortodoxas em cenários à altura.
A cidade já era um centro cultural e comercial no século IV Antes de Cristo, no meio da rota entre o Adriático e Bizâncio. Depois das invasões eslavas do século VI e VII da Era Cristã, torna-se também um núcleo religioso da Igreja Ortodoxa. Em 862 dois monges ortodoxos de origem grega (São Cyril e São Methodius) são mandados pelo imperador bizantino para difundir a fé e a escrita entre os eslavos recém-chegados à Morávia, atual República Checa. Um discípulo deles, São Kliment, cria e consolida o alfabeto cirílico, usado até hoje pelos países eslavos. Acompanhado de outro monge, São Naum, ele se fixa em Ohrid, para disseminar a capacidade de ler e escrever no sul da Macedônia, onde juntos criam a primeira universidade eslava, no final do século IX.
Igreja Sveti Jovan at Janeo, no Lago Ohrid
Na minha chegada ao hotel sou recebido por Damyan, um macedônio na casa dos 40 anos, que fala inglês fluentemente. Pensando que eu era inglês (provavelmente por causa da origem da minha reserva), ele imediatamente me convida para ver um jogo da Premier League que estava para começar – e fica ainda mais contente ao descobrir que eu era brasileiro. Ele me serve uma dose de rakia, o característico brandy produzido em casa mesmo, para encarar o inverno nos países dos Balcãs (pode ser destilado de uvas, peras ou ameixas, dependendo do que estiver à disposição).
Sentamos para conversar e um pouco depois aparece a mãe dele, Vera, uma senhora de setenta e poucos anos que não falava inglês – o que não a impediu de fazer todas as perguntas que quis para mim. Quantos anos eu tinha? Que língua se fala no Brasil? Era perto da Bolívia, não era? Eu era casado? Onde estava minha mulher? Tinha filhos? “Ah, que graça só uma cachorrinha...” Mas o que significa Baleia em português? E ela é muito gorda? Então você deu esse nome por causa de um livro e agora ela ficou gorda? “Perfeito...” O interesse de Vera pelo país do Altiplano explicava-se por uma antiga amiga boliviana da faculdade, em Belgrado.
Damyan não continha as risadas ao traduzir cada pergunta e resposta à mãe, servindo-se de um pouco mais de rakia da garrafa transparente e sem rótulo nos intervalos. Depois da terceira dose já tinha prometido me levar para conhecer o lado sul do lago, de carro, no dia seguinte. Ele me conta que Vera é uma enfermeira aposentada e que seu pai é um ex-oficial da exército iugoslavo, que para sorte dele “se aposentou antes da desgraça na Bósnia” – ele hoje vive em Belgrado.
Afrescos da Igreja Sveti Kliment i Pantelejmon
Agradeço pela rakia, me despeço de Vera e saio para dar uma volta pela cidade, ao entardecer. As vistas do alto da fortaleza de Cars Samoil (construída no século XI) e da igreja Sveti Jovan at Kaneo são de cair o queixo, assim como os afrescos dentro dos templos. Na igreja de Sveti Kliment i Pantelejmon, por exemplo, eles cobrem as paredes do chão ao teto – lá também estão enterradas “partes” de São Kliment, o inventor do alfabeto cirílico, me informa o funcionário de plantão.
No dia seguinte, descubro que a promessa de Damyan tinha sobrevivido aos efeitos da rakia e no começo da tarde caímos na estrada, a bordo de um Corsa dos anos 90. Aproveito a viagem para perguntar sobre os anos da Iugoslávia, e ele me diz que tem “boas e más lembranças”. “O lado bom, era que tínhamos o melhor passaporte entre os países do Leste, podíamos viajar para qualquer lugar”, conta, falando dos anos que passou na Inglaterra, quando ainda era estudante, e depois na África do Sul, trabalhando como crupiê em um cassino.
Depois de uns 20 minutos, chegamos ao Monastério de Sveti Naum, o outro monge fundador da primeira universidade eslava da história, que mantinha ali um centro de educação no século IX. A igreja que hoje ocupa o local, também coberta por incríveis afrescos, é “um pouco posterior”, Damyan me explica, do século XVI. Se não bastasse o cenário surreal do lago, um casal de pavões vive solto em volta do templo.
O governo macedônio promoveu um referendo para consultar a população sobre a saída ou não da federação iugoslava, em setembro de 1991, em que 74% votaram a favor.  A independência foi decretada em janeiro do ano seguinte, com o presidente Kiro Gligorov conseguindo uma proeza notável, ao negociar com Belgrado a retirada pacífica do exército iugoslavo – a Macedônia foi a única das seis repúblicas a deixar a Iugoslávia sem ter que lutar uma guerra.
Se com os sérvios ao norte não houve problemas, a independência aprofundou os conflitos na fronteira sul, com os gregos. Mais da metade do território historicamente ocupado pela Macedônia fica atualmente na Grécia e a primeira bandeira adotada pelos macedônios, com a Estrela Vergina no centro, um símbolo roialista, foi visto pelos gregos como precedente para reclamar terras sob seu controle no futuro.
Um dos pavões da igreja no antigo Monastério de Sveti Naum
Pressões dos gregos obrigaram a Macedônia a adotar um nome provisório logo após a independência, FYROM (que em inglês é a sigla para Antiga República Iugoslava da Macedônia), como alternativa para garantir sua admissão na ONU (Organização das Nações Unidas). Em 1994, quando os Estados Unidos reconheceram o novo país, a Grécia respondeu com um embargo econômico. No ano seguinte os macedônios mudam a bandeira para a versão atual, um círculo dourado cercado por raios vermelhos e amarelos – que não chega a ser exatamente um modelo de pacifismo, lembra bastante o símbolo imperialista do Japão na Segunda Guerra Mundial.
Em 2005 a Macedônia fez seu pedido formal de adesão à União Europeia, prontamente bloqueado pela Grécia, que mantém posição semelhante em relação à Turquia, em razão do conflito na Ilha de Chipre. Três anos depois, a situação se repetiria para os macedônios na sua tentativa de entrar para a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), a aliança militar do Ocidente, também objetada pelos gregos.
Internamente, porém, a maior questão na Macedônia é com a minoria albanesa – que representa cerca de 20% dos 2 milhões de habitantes do país. Durante a campanha sérvia para expulsar os albaneses do Kosovo e os bombardeios da Otan, em 1999, cerca de 400 mil refugiados foram abrigados do lado macedônio da fronteira.
Mesmo assim, o UÇK (Exército de Libertação Nacional, a versão macedônia do UÇK kosovar), promoveu ataques em 2001. O conflito durou seis meses, até a assinatura do Ohrid Framework Agreement, um acordo que garantia alguns direitos à minoria, como a possibilidade de oferecer educação na língua albanesa e o estabelecimento de cotas étnicas para contratações no setor público.
Estátua de guerreiro clássico e a ponte turca, o que é mais macedônio?
No dia seguinte, na minha volta para Skopje, volto pensando na tentativa de “rebranding” do país. Depois de visitar Ohrid, chego à conclusão de que há coisas que nem os políticos conseguem arruinar. Enquanto os kebapcis estiverem assando na Carcija, do outro lado do rio, e a rakia ainda estiver sendo generosamente servida aos visitantes nos casarões otomanos em volta do lago, não há quantidade de prédios em estilo clássico ou estátuas de bronze capazes de mudar a verdadeira imagem da Macedônia.

*“Pode alguém mover um império como se fosse uma casa?”
3 Elegies for Kosovo, Ismail Kadare

Carreguei dois videos curtos no YouTube, um com a vista do Lago Ohrid do meu quarto na pousada de Damyan, e outro com os incríveis afrescos ortodoxos da igreja Sveti Naum.

Lago Ohrid
http://youtu.be/aHYZwzQ2V5c

Sveti Naum
http://youtu.be/9dzVThvQdlk

terça-feira, 13 de maio de 2014

Na Planície dos Pássaros Negros

O mapa em amarelo e as estrelas da bandeira do Kosovo
"What? Not Serbia, not Albania? – Let me put it to you this way, my friend: some say this is Serbia, some say Albania. The Lord only knows which of the two it really is. So who owns this accursed plain where we spilled our blood, the Blackbird Plain, as they call it? It was there, my brother, that the fighting started – a hundred, maybe even two hundred years ago.”*
3 Elegies for Kosovo, Ismail Kadare


Sempre que eu me aproximo de um controle de fronteira por terra um arrepio me corre a espinha. Em aeroportos normalmente é um procedimento mais tranquilo, os policiais costumam ser mais bem treinados e mais habituados a diferentes passaportes – além disso, há a esperança de uma embaixada nas proximidades. Mas por terra, tudo pode acontecer...
Antes de o ônibus encostar no posto fronteiriço o cara da companhia de transporte passa uma lista, em que cada passageiro escreve o próprio nome e número de documento. Depois um policial entra recolhendo os passaportes, e quando pega o meu olha duas vezes a foto e depois para mim, como que para ver se entendeu direito. O que um brasileiro estaria fazendo ali, cruzando da Albânia para o Kosovo?
Todo mundo que tem mala é convidado a descer do ônibus e levar a bagagem até uma sala de inspeção. Um policial educado e em um inglês perfeito pede para que eu abra minha mochila, com meu passaporte em mãos, e me pergunta o que eu faço da vida, “além de jogar futebol”, ele brinca. Ah, o futebol é mesmo uma benção...
Pristina, moderna e em crescimento acelerado
Recolhemos nossas malas e voltamos todos para o ônibus, ainda sem nossos passaportes, e ele segue viagem... Já ouvi dizer que os viajantes que chegam ao Kosovo por terra costumam ter a entrada negada depois na Sérvia, sob a alegação de que você entrou no país ilegalmente – até 2007 o território era sérvio e eles se recusam a reconhecer a independência kosovar. Meu voo de volta tinha uma escala em Belgrado, mas isso era um problema para depois... Onde estava o meu passaporte? O ônibus já alcançava velocidade de cruzeiro rumo à planície verdejante abaixo quando o cara da Metropol Tirana começa a percorrer o corredor, com um bolo de passaportes na mão, para fazer a distribuição.
Aliviado, começo a apreciar a paisagem na Planície dos Pássaros Negros, Kosovo para os sérvios, Kosova para os albaneses. Depois do montanhoso leste da Albânia, fica claro por que o conflito se arrasta por essas terras há mais de 600 anos – é tudo verde, plano e fértil. O Kosovo já foi o coração do império sérvio, lá no século XII, a era de ouro do czar Stefan Dusan, com sede em Prizren, uma cidade que fica ao sul da capital, Pristina.
O domínio sérvio caiu por terra em 1389, depois de uma batalha que foi o divisor de águas na região pelos próximos cinco séculos, a Batalha do Kosovo – lutada em uma vila pertinho de Pristina, Kosovo Polje, onde hoje fica a estação de trem. Em um único dia um combinado de forças cristãs, incluindo sérvios, montenegrinos, húngaros, romenos e albaneses combateram os turcos, e perderam. A derrota deu início à diáspora sérvia rumo norte e marca o começo da supremacia étnica dos albaneses na região, que adotaram o islamismo sob domínio otomano.
Albaneses com de qeleshe, o chapéu tradicional, cena comum no Kosovo
Um albanês nunca irá concordar com isso, diga-se de passagem, porque eles se dizem descendentes dos ilírios, um povo indo-europeu que ocupava essa parte dos Balcãs antes de Cristo, anterior aos romanos e às invasões eslavas dos séculos VI e VII da Era Cristã.
O Kosovo foi parte do Império Otomano até 1912, quando os sérvios voltaram a dominar a região como resultado da Primeira Guerra dos Balcãs. Durante a Segunda Guerra Mundial, as terras são incorporadas à Grande Albânia, controlada pelos italianos de Mussolini. Em 1944 os kosovares são libertados dos fascistas pelos partisans albaneses, que depois entregam as terras à recém criada Iugoslávia de Tito - ele queria integrar a Albânia à nova federação dos eslavos do sul, mas não teve sucesso.
O Kosovo então permaneceu como a área mais atrasada e pobre da Iugoslávia, uma parte da Sérvia, sem o status de república das demais seis nações integrantes da federação (Croácia, Eslovênia, Bósnia, Macedônia e Montenegro, além dos sérvios). Era chamado pelos próprios iugoslavos como o Wild West (Oeste Selvagem), pela fama dos albaneses de sempre carregar uma arma.
Vindo da Albânia e depois de tudo o que eu já tinha lido e ouvido sobre o Kosovo, minhas expectativas não eram das mais positivas. Talvez até por isso minha impressão ao chegar a Pristina foi de surpresa total. Em vez de uma cidade atrasada, encravada na zona historicamente mais conflituosa dos Balcãs, o que eu encontrei foi um lugar moderno, razoavelmente limpo, com carros novos circulando pelas ruas e internet WiFi disponível em qualquer café ou restaurante.
Como Pristina fica em um vale, as encostas ainda continuam ocupadas por casas, mas na área central, lá embaixo, a cidade vive um verdadeiro boom da construção civil. Sítios e mais sítios em obras, enormes guindastes carregando vigas de aço para estruturar os novos arranha-céus, um cenário que não difere muito de Balneário Camboriú (SC), por exemplo.
Fotos de "desaparecidos" na guerra de 1999, em um prédio público
Parece que depois de tanto tempo os kosovares resolveram deixar os conflitos de lado e se concentrar nos negócios – ou pode ser também a enxurrada de dinheiro europeu desaguando no mais novo país do continente (o Kosovo tornou-se oficialmente independente só em 2008). Ao mesmo tempo, foi curioso ver tantos homens circulando pelas ruas com o característico chapeuzinho branco que identifica os albaneses, o qeleshe – algo que na Albânia mesmo eu vi muito pouco. Talvez porque aqui eles funcionem como declaração de identidade, uma forma de marcar a supremacia étnica albanesa no Kosovo.
A maioria albanesa é histórica na região desde que essas terras passaram ao controle da antiga Iugoslávia, o que sempre foi um grande motivo de preocupação para o governo de Belgrado. Filho de mãe croata e pai esloveno, Tito era famoso pelas suas visitas constantes às seis repúblicas da federação, que fazia sempre a bordo de seu trem azul particular, uma estratégia para balancear as tensões e interesses regionais. Mas apesar de Pristina estar a apenas seis horas de viagem de Belgrado, o marechal levou onze anos para fazer sua primeira visita à cidade, em 1967. O chefe da polícia secreta iugoslava, Aleksandar Rankovic, dizia ser capaz de garantir a segurança de Tito em qualquer lugar no mundo, exceto no Kosovo...
Esses eram os anos de liberalização do regime iugoslavo, ao mesmo tempo em que a pressão demográfica albanesa no Kosovo só aumentava. Os albaneses sempre foram notórios por ter grandes famílias, há até um ditado popular que ensina o que fazer com os filhos – é preciso gerar no mínimo três homens, um para ficar na terra, um para mandar ao exterior e outro para lutar na guerra. No final dos anos 60, a população albanesa kosovar já se aproximava dos 70%.
Estátua de Clinton, herói no Kosovo
A partir de 1968, os albaneses do Kosovo experimentam a chamada Rilindja (Renascimento), com a autorização de oferecer educação superior na língua albanesa – antes só permitida em sérvio. Em 1974, a Iugoslávia dá um poder de autogoverno aos kosovares.
Os ventos invertem a direção na década seguinte, com a entrada em cena de uma das figuras políticas mais negras da história moderna dos Balcãs. Estimulando o nacionalismo e surfando no descontentamento da minoria sérvia na região, Slobodan Milosevic aproveita o conflito ancestral no Kosovo como plataforma de ascensão ao poder a partir de 1987. Ele assume a presidência iugoslava em 1989 e no aniversário de 600 anos da derrota para os turcos marca uma posição nacionalista em Kosovo Polje, que ficou conhecido como o Discurso de Gazimestan. Nesse dia Milosevic sinalizou com a possibilidade do uso da força para garantir a supremacia sérvia na Iugoslávia, abrindo a Caixa de Pandora que levou à guerra, limpeza étnica e genocídio na Bósnia e na Croácia.
No mesmo ano Milosevic suspende a autonomia do Kosovo que tinha sido concedida dois anos antes. Os albaneses passam a boicotar as escolas e o governo iugoslavo, ao que os sérvios respondem substituindo 100 mil funcionários de origem albanesa na mídia e posições estatais na província. Nessa época a maioria albanesa já estava na casa dos 80%.
A guerra sempre foi esperada no Kosovo, mas no desintegrar da Iugoslávia estourou mesmo na Bósnia, em 1992. Na esteira da pulverização da federação iugoslava, em 1996 surge o UÇK (Exército de Libertação do Kosovo) e a tensão aumenta. Três anos depois, a Sérvia já separada de Croácia, Bósnia, Eslovênia e Macedônia, rejeita um plano apresentado pelos Estados Unidos para dar autonomia à região. Em seguida, Belgrado tenta repetir no Kosovo a estratégia de expulsão da população não-sérvia empregada no leste da Bósnia – o problema era que a maioria albanesa era simplesmente esmagadora.
Ainda assim, 850 mil kosovares de origem albanesa deixam a região, cruzando as fronteiras para Albânia e Macedônia. As potências ocidentais decidem não cometer o mesmo erro duas vezes, depois da falta de ação que resultou até em campos de concentração e execuções em massa na Bósnia. Aviões da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) bombardeiam cidades sérvias (Belgrado, Novi Sad e Nis, entre outras), além de Pristina, no Kosovo. Pela primeira vez a Otan colocava em andamento uma operação militar sem aprovação do Conselho de Segurança das Nações Unidas, algo que os russos (aliados históricos dos sérvios) até hoje não digeriram. Esse foi um fato citado recorrentemente pelo presidente Vladimir Putin entre as justificativas para suas recentes ações na Ucrânia e anexação da Península da Crimeia.
Letreiro do recém-nascido, Kosovo é o país mais novo da Europa
Depois de 78 dias de bombardeio, Milosevic foi forçado a retirar as tropas sérvias do Kosovo. A partir de junho, a KFOR, sigla para a Kosovo Force, a força de paz da Otan, assume o controle da região. Quase dez anos depois, em 2008, uma assembleia eleita localmente decreta oficialmente a independência. Mais de 100 países reconhecem a autonomia kosovar, entre os quais Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, França, Austrália e Nova Zelândia. China e Rússia não, assim como o Brasil também não. De lá para cá, a maioria albanesa tornou-se ainda maior - dos cerca de 2 milhões de habitantes do Kosovo, 92% são dessa etnia, com os restantes 8% divididos entre sérvios, roma, bósnios, turcos e até egípcios. A guerra foi há 15 anos, mas em frente aos prédios públicos de Pristina ainda se vê fotos e nomes de pessoas “desaparecidas” durante a tentativa de limpeza étnica posta em prática pelos sérvios.
A presença norte-americana e da KFOR ainda é bem visível na capital, seja pela facilidade de encontrar quem fale inglês, seja na forma de bandeiras mesmo. Um pouco ao sul do centro você pode caminhar pela Rua George W. Bush, que faz esquina com o Boulevard Bill Clinton. Se para boa parte do mundo o ex-presidente democrata é lembrado pelo gosto por estagiárias gordinhas e charutos (combinados), no Kosovo ele é visto como um dos grandes responsáveis pela independência. Na avenida com seu nome há até uma estátua de bronze de quase três metros de Clinton, que foi surrealmente inaugurada por ele mesmo, em novembro de 2009.
Os kosovares se orgulham de ser o país mais novo da Europa. Ao norte da região central, em frente ao primeiro shopping center de Pristina, eles instalaram um enorme letreiro com a palavra Newborne (Recém-nascido, em inglês) - além de cenário para fotos serve de playground para as crianças, que se divertem escalando as letras gigantes.
Painel em homenagem a Adem Jashari, no ginásio de Pristina
O centro de compras fica ao lado do estádio de futebol e do ginásio público, decorado com uma enorme fotografia de Adem Jashari, um dos fundadores do UÇK. Camponês analfabeto de origem albanesa, ele tomou parte pela primeira vez em combate contra forças sérvias em 1991. Treinado na Albânia, foi preso daquele lado da fronteira em 1993 e mandado para a cadeia em Tirana. Na confusão pós-queda do comunismo no país vizinho, acabou sendo libertado por exigência de nacionalistas do Exército albanês e retornou ao Kosovo, liderando ações de guerrilha e sabotagem contra forças sérvias. Sua base ficava em Prekaz, uma pequena cidade no centro do Kosovo, a noroeste de Pristina, onde os sérvios por anos não ousaram entrar.
Em 7 de março de 1998, um destacamento das forças armadas sérvias cerca Adem Jashari e seu irmão Hamez, na casa da família, em Prekaz, uma operação que incluiu blindados e peças de artilharia. Eles recusam-se a se entregar e a batalha dura dois dias. Os militares sérvios finalmente invadem a casa, em uma ação que a Anistia Internacional, em sua análise do caso, qualificou como planejada para não deixar testemunhas. Jashari e outros 57 pessoas foram mortas na ação, incluindo 18 mulheres e dez menores com idade inferior a 16 anos.
Com isso surgiu um mártir, que virou símbolo da luta pela independência kosovar. Depois de 2008, camisetas com o desenho do barbudo Jashari usando qeleshe e a frase “Bac, U Kry!” (algo como “Acabou, Tio!”) se espalharam pelas ruas de Pristina. A casa em que ele a família foram mortos, em Prekaz, foi transformada em um memorial e centro de peregrinação para os nacionalistas albaneses no Kosovo. Além da foto gigante no ginásio, o guerrilheiro hoje dá nome ao aeroporto internacional da capital.
Depois de três dias em Pristina eu me dirijo à rodoviária - que para minha alegria existia na capital kosovar – para seguir viagem, rumo à Macedônia.

*“O que? Não é Sérvia, nem Albânia? Deixe-me colocar para você dessa forma, meu amigo: uns dizem que isso é Sérvia, outros Albânia. Só Deus sabe qual dos dois realmente é. Então quem é o dono dessa planície amaldiçoada onde nós derramamos nosso sangue, a Planície do Pássaro Negro, como eles a chamam? Foi ali, meu irmão, que a luta começou – cem anos, talvez até duzentos anos atrás.”
3 Elegies for Kosovo, Ismail Kadare


Na van, a caminho da Macedônia
Carreguei no YouTube um vídeo curto de dois músicos albaneses em ação no centro de Pristina, a tradicional combinação de sopro e percussão. Também abaixo tem um link de outro vídeo que apresenta a visão albanesa de quem foi Adem Jashari.

Pristina
http://youtu.be/dPvgQs8mveU

Adem Jashari
http://www.youtube.com/watch?v=dP-JypvrqI8

Bibliografia:
O escritor albanês Ismael Kadare faz uma descrição poética da Batalha do Kosovo em 3 Elegies for Kosovo, centrando a narrativa em dois menestréis trazidos pelos reis sérvio e albanês para cantar a vitória de seus exércitos. Na véspera da batalha, mesmo com os dois povos prestes a combater lado a lado, ambos entoam canções que alertam para a invasão do Kosovo pelos vizinhos. Ou seja, o conflito kosovar é tão atávico que, mesmo quando aliados, os músicos albaneses e sérvios instintivamente cantavam uns contra os outros, simplesmente porque não sabiam cantar de outra maneira...
Para um relato mais contemporâneo, Kosova Kosovo, Prelude to war 1966-1999. O título soa denso, mas é na verdade um relato leve, rico em detalhes e extremamente bem humorado de Mary Motes, uma britânica que viveu parte dos anos 60 e 70 no Kosovo, como a primeira professora ocidental na Faculdade de Filosofia de Pristina.

Entre os filhos da águia

Bandeira albanesa e Skanderbeg, no centro de Tirana
À primeira vista, a Albânia pode ser um lugar confuso. Para começar, quando concordam com você os albaneses chacoalham a cabeça de um lado para o outro, no que para o resto do mundo significa uma negativa. Se discordam, o sinal é oposto, no que parece um lento e assertivo sinal positivo. As placas – não que existam tantas por lá - têm duas versões: quando você chega a uma cidade, por exemplo a capital, vai se deparar com a indicação “Tirana”. Mas se estiver a caminho, na estrada, só vai encontrar “Tirane”, que na gramática albanesa significa “para Tirana”. Bom, lugares simples não costumam ser muito interessantes mesmo...
A Albânia é um lugar sui generis no mundo, a começar pela língua. O albanês é o único idioma nos Balcãs pré-romano e eslavo – claro que sofreu influência dos dois, além do turco, mas tem origem em um povo indo-europeu que ocupava a região antes de todos os outros, os ilírios, que chegaram lá por volta de 200 Antes de Cristo. O próprio nome do país em albanês é diferente – Shqipëria (pronuncia-se “ship-ree-ia”) – que significa “Terra das Águias”, símbolo que está até na bandeira, uma águia de duas cabeças negra sobre o fundo vermelho. Os albaneses, na própria língua, se denominam shqiptars, “filhos da águia”.
A razão dessa denominação é poética. Reza a lenda que um jovem albanês estava caçando nas montanhas quando viu uma grande águia carregando uma cobra no bico, em direção ao ninho, onde descarrega a presa e voa novamente. Ele sobe à árvore e encontra um filhote de águia acuado pela cobra, que ainda estava viva. O albanês mata o réptil com o próprio arco e recolhe o filhote, levando-o consigo. A caminho de casa, o jovem é interceptado pela águia mãe, que exige o filho de volta. Ele se recusa, dizendo que agora o pequeno era dele, uma vez que a mãe não tinha sido capaz de protegê-lo. Em troca do filhote, a águia oferece o poder das próprias asas e a acurácia da sua visão, com o que ela diz que o albanês se tornaria invencível. Ele aceita, sendo daí em diante guiado e protegido pela ave, agora ele também transformado em um “filho da águia”...
Mural na Praça Skanderbeg, dos guerreiros ilírios aos partisans
Poesia à parte, desembarco em Tirana no domingo de Páscoa. Ao chegar ao hotel – na verdade uma pensão -, sou carinhosamente recebido pela proprietária, Antonieta, uma senhora na casa dos sessenta e poucos anos, que sorrindo concorda negativamente com tudo o que eu digo. Junto com as chaves do meu quarto, ganho uma generosa fatia de pão doce e um ovo cozido pintado de vermelho, “porque hoje é Pascoa”. Não é o que se poderia esperar de um país em que 70% da população é muçulmana. Mas até nisso a Albânia é diferente.
Sob o domínio dos romanos, os albaneses tornaram-se católicos, mas isso mudaria depois da batalha que serviu para definir conflitos nos Balcãs pelos próximos 600 anos, no Kosovo, em 1389. Uma força cristã combinada de sérvios, montenegrinos, bósnios, húngaros, romenos e albaneses é derrotada pelo exército otomano, abrindo as portas da Europa para o domínio turco. A Albânia, porém, só seria submetida ao controle do sultão quase cem anos depois.
Ao caminhar pela praça principal de Tirana, a figura única de um cavaleiro barbudo, de espada em riste, domina o cenário. É Skanderbeg, o maior herói albanês, um nobre que resistiu aos turcos por 25 anos, sitiado em seu castelo de Kruja, no interior do país. Ele venceu todas as 25 batalhas que lutou contra os otomanos - eles só conquistaram a Albânia em 1479, 26 anos depois da morte do cavaleiro (de malária, não em combate). Os albaneses se orgulham de dizer que são os verdadeiros salvadores da Cristandade, por terem mantido as forças turcas ocupadas durante tanto tempo no período em que eles estavam no auge do poder, desviando a atenção do resto da Europa.
A partir daí, à semelhança do que fizeram os bósnios, a maioria dos albaneses adota a fé muçulmana, uma forma de facilitar a própria vida durante os 500 anos de dominação turca. Assim, por exemplo, eles conseguiam fugir do chamado “tributo de sangue”, regulamento que exigia das famílias cristãs nas províncias otomanas a entrega de um filho homem para servir no exército ou burocracia administrativa do império.
Café no centro de Tirana
O movimento de independência albanesa teve início em 1878, quando surge a Liga Albanesa de Prizren (uma cidade que atualmente fica no Kosovo), um movimento nacionalista derrotado militarmente pelos turcos logo em 1881, mas que serviu para estabelecer uma gramática única para a língua albanesa, até então inexistente. A independência viria em 1912, no desintegrar do Império Otomano, mas em 1939 a Albânia sofre nova invasão, dessa vez pelos italianos, em meio ao delírio de Mussolini de restabelecer o Império Romano.
Dois anos depois entraria em cena a figura que ia dominar o cenário político pelas próximas cinco décadas, Enver Hoxha, ao fundar o Partido Comunista Albanês. Nascido em uma família de classe média em Gjirokastra, no sul da Albânia, ele frequentou primeiro uma escola francesa e depois americana, em Tirana, e nos anos 30 vai a Paris, cursar a universidade.
Hoxha comanda a guerrilha durante a Segunda Guerra Mundial, primeiro contra os italianos, até 1943, depois contra os alemães, quando a Itália muda de lado. De novo, os albaneses se orgulham do seu papel na luta contra o fascismo – os 70 mil partisans comunistas detiveram 15 divisões alemãs estacionadas na região durante o conflito, ajudando a drenar forças nazistas de outras frentes. A Albânia e a Iugoslávia de Tito, aliás, foram os únicos dois países que conseguiram se libertar dos nazistas sem ajuda direta de tropas russas.
Com a vitória, ao fim da Segunda Guerra, Hoxha estabelece a República Popular da Albânia, em 1946. Tito tentou atrair os albaneses para a recém-criada Iugoslávia, para ser a sétima república da federação (ao lado de Sérvia, Croácia, Eslovênia, Bósnia, Montenegro e Macedônia), mas o novo ditador tinha outros planos. Ao mesmo tempo em que os iugoslavos se afastam de Moscou, a Albânia se aproxima da União Soviética, colocando em prática um modelo econômico nos moldes stalinistas.
Praça Skanderbeg ao entardecer
Eu também tinha outros planos, e depois de deixar a mala na pensão saio pelas ruas de Tirana, em busca de uma passagem para Berat, a incrível Cidade das Mil Janelas no sul do país, que eu planejava visitar nos próximos dias. Meu guia de viagem dizia que a capital não tinha exatamente uma rodoviária, mas que os ônibus – ou vans – partiam de um ponto próximo à estação de trem.
Seguindo o mapa, chego à estação ferroviária, mas ao seu lado só encontro um terreno baldio, cheio de entulho e barro revirado. Dentro do saguão de onde deveriam partir os trens, uma família de ciganos parece instalada para ficar, ocupando o centro do recinto com uma tenda e uma pequena fogueira, onde um caldeirão fervia. Vou até o que seriam as bilheterias, mas os pontos de venda de passagens não são mais do que buracos gradeados, vedados por madeira compensada já enegrecida pelo tempo – ou pela fumaça da fogueira cigana. É, o serviço ferroviário albanês não parecia estar muito ativo...
Saio da estação e busco informação nas barraquinhas da vizinhança, em uma padaria, com dois motoristas de táxi, mas não encontro ninguém que falasse inglês. Finalmente entro em uma agência de viagens, onde uma moça solícita, em um inglês fluente, me explica que já há algum tempo os ônibus não partem mais dali. Ela também não sabia de onde, dizendo que isso “mudava constantemente”. O melhor a fazer, me disse, era entrar em um táxi e pedir para o motorista me levar aos ônibus que vão para Berat. Para garantir, ela escreve a fala em um papel, em albanês.
A casa da "dívida de sangue", à beira do Rio Lana
Com isso dou por encerrada minha busca e volto para o hotel. Subindo as escadas, sou interceptado por Antonieta, que quer saber se estou bem. Conto minha saga e ela balança a cabeça de um lado para o outro, concordando sempre negativamente comigo. Pega o telefone e em cinco minutos descobre os horários, de onde saem, e agenda um táxi para me levar até os ônibus, dois dias depois.
Hospitalidade é uma coisa muito séria na Albânia. Tão séria que, ao lado da honra, ocupa o topo da escala de valores definidora de um código de conduta que regeu a vida albanesa durante quase 500 anos. É o chamado Kanun, uma detalhada constituição de 1.261 artigos formalizada no século XV, que estabelece princípios claros de como se portar no dia-a-dia. Trabalho, casamento, propriedade, economia, está tudo coberto em detalhes.
De acordo com o Kanun, a hospitalidade é vista como algo tão importante que o visitante torna-se uma figura quase divina. Há 38 artigos estabelecendo como ele deve ser tratado, com abundância de comida, bebida e conforto. Entre os procedimentos está a exigência de que um integrante masculino da família escolte o hóspede até o limite de sua propriedade, para garantir seu bem estar. Se o visitante for morto dentro das fronteiras da família, por exemplo, torna-se dever de um homem desse núcleo vingar sua morte, mesmo que a vítima seja só um desconhecido que pediu abrigo apenas por uma noite.
A chamada “dívida de sangue” é um dos pontos mais sombrios do Kanun. Conectados fortemente ao conceito de honra, os albaneses que seguem o código matam sem pensar muito, ao se sentirem ofendidos. E o problema é que uma morte abre um ciclo de vendetas que se estende por gerações – um integrante masculino da família do morto deve assumir a obrigação de vingar o assassinato, que, ao se cumprir, por sua vez desencadeia nova obrigação de vingança, e assim por diante. A questão só tem fim quando o último homem (no que se incluem crianças acima dos sete anos) da família ofensora estiver morto, ou quando uma reconciliação é negociada pelos membros mais velhos e respeitados da comunidade.
Mini bunker na região central de Tirana
Ainda que duramente combatido durante os anos de comunismo, o Kanun ainda é seguido por parte dos albaneses - um exemplo vivo disso pode ser visto até mesmo em Tirana. No início dos anos 2000 o prefeito da capital colocou em andamento um choque de ordem, na tentativa de melhorar um pouco o aspecto cinzento e decrépito da cidade, pintando dezenas de prédios em cores vivas e retirando das margens do Rio Lana as edificações ilegais. Mas se você caminhar pela beira do rio na direção oeste, vai encontrar apenas uma casa térrea cinzenta, que não foi demolida. É porque ali está em andamento uma dívida de sangue. As mulheres da família podem entrar e sair à vontade, mas os homens não podem deixar a residência (onde, estipula o Kanun, estão a salvo), porque serão assassinados...
O projeto de revitalização do prefeito deu algum resultado, adicionando um pouco de cor à arquitetura dominada pelos blocos de apartamentos ao estilo soviético, uma série interminável de caixotes horizontais de concreto - mas não foi muito além. Vê-se em Tirana algum movimento de construção civil, com arranha-céus subindo em volta da Praça Skanderbeg, mas no geral a sensação é de que o comunismo acabou anteontem. Não foram cinco meses, mas quase 50 anos de ditadura. E em algumas conversas que tive pelos Balcãs, o ditador albanês é colocado no topo do ranking de malignidade, ao lado do romeno Nicolae Ceaucescu.
A Albânia foi durante décadas um dos países mais fechados do mundo, nos moldes do que a Coréia do Norte é hoje. Admirador de Stálin, Enver Hoxha colaborou com a União Soviética até 1960, quando Krushev exige uma base de submarinos em Vlora, no litoral sul albanês. Enxergando no secretário-geral do Partido Comunista Soviético uma mão fraca, ele nega o pedido e se afasta dos russos, voltando-se para a China.
Bunkers no caminho, até no quintal das casas
Entre 1966 e 1967 a Albânia experimenta um processo de revolução cultural à la chinesa, com igrejas e mesquitas sendo saqueadas e destruídas, coletivização da agricultura, funcionários públicos exilados em áreas remotas e jovens fanáticos assumindo posições de destaque no governo. Antonieta me fala com horror do período, balançando a cabeça em uma negativa enfaticamente positiva.
Naqueles anos o endurecimento do regime ganha novas proporções. Uma pessoa pega ouvindo uma rádio estrangeira podia ser condenada a dez anos de trabalhos forçados nas minas de cromo. “Ir à igreja dava sete anos de cadeia”, conta Antonieta. Aproveito a deixa e pergunto se ela é cristã, para entender meus presentes de Páscoa. “Sim, sou católica. Mas aqui convivemos bem... Meu marido é muçulmano, meu pai também era, minha mãe católica”.
Durante esse período, ela relembra, música chinesa tocava “o tempo todo” no rádio. “Não temos nada a ver com eles, é do outro lado do mundo...” Ah, e usar jeans também era proibido.
Depois da invasão soviética da Tchecoslováquia em 1968, para colocar fim à Primavera de Praga, Hoxha tira a Albânia do Pacto de Varsóvia, a aliança militar dos Estados comunistas, e o país fica ainda mais isolado. Nessa época a paranoia do ditador alcança novos patamares e começam a pipocar as mais sólidas heranças malditas do regime, os mini bunkers.
Casarões otomanos de Berat, a Cidade das Mil Janelas
No dia seguinte, da van a caminho de Berat (que tomei de um terreno baldio no oeste de Tirana, fazendo as vezes de rodoviária no dia), eu veria muitos deles. Verdadeiros cogumelos de concreto, os mini bunkers foram pensados como peça chave da política de auto defesa de Hoxha contra invasores estrangeiros. Na falta de armas modernas ou aliados poderosos próximos, o ditador encarregou uma equipe de engenheiros de criar uma estrutura praticamente indestrutível, para ser replicada por todo o país, uma pequena fortaleza de onde um ou dois albaneses armados de fuzis poderiam resistir até a blindados.
Antes de dar a aprovação final à estrutura, Hoxha exigiu que o engenheiro-chefe do projeto permanecesse dentro de um dos bunkers, sob o bombardeio de um tanque de guerra. O homem saiu da experiência meio trôpego, mas intacto, e o plano de construir 60 mil unidades dos pequenos cogumelos cinzentos foi adiante.
Olhando pela janela, em qualquer estrada albanesa, eles estão por todos os lados. O problema é que não ocupam apenas pontos estratégicos, muitas vezes estão no meio de pastagens, lavouras e até quintais de casas. Projetados para resistir a tudo, são caros e difíceis de remover. Com uma picareta, um homem comum tem que dedicar uns três meses de trabalho árduo nas horas vagas para demolir um mini bunker, só para abrir espaço na garagem de casa para um carro, por exemplo. Mas como não há nada que seja de todo mau, muitos albaneses confessam ter perdido a virgindade dentro de um deles...
Uma ds vinhas-trepadeiras de Berat
Chego a Berat no final da manhã, uma viagem de pouco mais de duas horas a partir de Tirana, e parece outro mundo. A Cidade das Mil Janelas é uma das poucas que os comunistas mantiveram intactas, livres dos blocos de concreto. Os casarões otomanos de paredes brancas continuam ocupando as ladeiras em meio a vinhas plantadas como se fossem trepadeiras, no meio da cidade mesmo, como há 500 anos.
Lá experimento mais um pouco da hospitalidade albanesa, recebido pelo dono do hotel em que fiquei, Nasho Vruo. Um senhor de quarenta e tantos anos, Nasho fala alemão, francês e italiano, além de albanês, mas nada de inglês. Va bene, fazendo uso de um italiano de novela das oito, eu me viro. Ele faz questão que eu prove seu vinho – uma tradição em Berat, a maioria das casas produz a própria bebida.
Ao final de um longo dia de subidas e descidas, incluindo uma escalada ao castelo que domina a cidade do alto, no flanco norte, observo o pôr do sol da minha varanda, com as montanhas nevadas no horizonte. Lá embaixo, ao longo do rio, o movimento do korzo diário ganha volume, um caminhar para cima e para baixo da avenida principal, sem muito mais objetivo do que ver e ser visto. Ao fundo, o chamado rítmico dos muezins para a oração do entardecer começa a subir das mesquitas.
Retorno a Tirana no dia seguinte pela manhã, dessa vez uma passagem relâmpago, suficiente só para esperar meu ônibus para o próximo destino. Mas havia tempo para uma caminhada pelo chamado Bloku, a área ao sul do Rio Lana que nos tempos de Hoxha era território proibido para o albanês comum.
Depois da morte de Mao Tsé Tung (em 1976) e as mudanças que começaram as reformas modernizadoras na China, a partir de 1978, Hoxha põe fim à relação da Albânia com os asiáticos, afundando a economia local na crise e levando até à falta de comida. Nesse período, em que o país não tinha mais aliados, o ditador se encerra nos seus quarteirões fortificados, enquanto o resto do país caminhava para o colapso.
Restaurante no Bloku, em Tirana, bairro de elite à la albanesa
Ali, no Bloku, fica o edifício de onde ele governava e assistia a paradas militares da sacada, além da residência em que vivia - o curioso é que ela não tem nada de luxo, parece uma daquelas casas de classe média construídas nos anos 50 no interior de São Paulo, pintada de bege e cercada por um jardim. O Bloku é hoje o destino dos endinheirados de Tirana, mas à moda albanesa. Ao lado de prédios modernos, cafés e restaurantes da elite ocupam o pavimento térreo, com carros importados estacionados em frente. Mas no segundo andar, você vê paredes de tijolo aparente, com o teto coberto por telhas de amianto e roupas penduradas para secar nas janelas.
Hoxha morreu em 1985, mas o regime se manteve, ainda que caindo aos pedaços. As pessoas não iam mais trabalhar, simplesmente porque o salário que recebiam não era suficiente para comprar quase nada. Ali no Bloku, logo do outro lado da ponte, encontra-se um dos símbolos mais bizarros do regime, uma enorme pirâmide de concreto projetada pela filha do ditador, construída em 1988 para abrigar um museu em homenagem ao ex-governante. A estrutura já foi um centro de conferências e uma boate, mas hoje está abandonada e coberta por graffitis – virou ponto de encontro da juventude de Tirana, que costuma escalar a pirâmide para ouvir música e desfrutar da vista.
O regime comunista só entrou em colapso definitivo em 1990, depois da queda do Muro de Berlim, quando mais de 4.000 albaneses buscam asilo em diversas embaixadas de Tirana. No ano seguinte, às vésperas da primeira eleição democrática, 20 mil albaneses aproveitam a abertura das fronteiras e fogem em barcos para Brindisi, na Itália.
A pirâmide do Bloku, em Tirana
Em 1992, o comunismo chega oficialmente ao fim na Albânia e o país vive uma transição brutal e sem escalas para o livre mercado. Aproveitando a desordem, albaneses estabelecem a prática de roubar Mercedez na Alemanha e trazê-los para território albanês, onde passam a circular livremente (muitos ainda estão por lá até hoje, visíveis nas ruas). Fazendas coletivas são transformadas em plantações de maconha e o porto de Vlora torna-se um dos principais pontos de entrada de imigrantes ilegais da Ásia e do Oriente Médio na Europa. As cidades albanesas incham do dia para a noite, infladas por camponeses vindos do interior, finalmente livres para ir e vir.
Em 1996, um esquema financeiro de pirâmides estimulado pelo próprio governo entra em colapso e 70% da população perde suas poupanças, um prejuízo estimado em US$ 1 bilhão. O ódio toma as ruas, depósitos de armas das forças armadas são tomados à força, fuzis, metralhadoras, granadas, tanques e até jatos de combate são levados. Armada, a população sai pelas ruas saqueando o que encontra pela frente.
As coisas começam a melhorar levemente a partir de 2002, com a entrada de dinheiro europeu investido em bancos e na construção civil, mas até hoje falta de água e energia acontecem até na capital. A presença norte-americana na Albânia também aumentou de lá para cá e bandeiras dos Estados Unidos são comuns em Tirana. Em abril de 2009 o país passa a integrar a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), a aliança militar do ocidente.
Casa onde vivia o ditador Enver Hoxha, no Bloku
Para o meu alívio, a estrutura para as viagens internacionais é um pouco mais organizada - meu ônibus para Pristina tem até um ponto determinado de partida, ao lado do Tirana International Hotel. É hora de deixar a Albânia, em direção ao Kosovo.


Carreguei no YouTube um vídeo curto  do entardecer em Berat:
https://youtube.com/watch?v=jXhXq5OLayI

Bibliografia:
O escritor albanês Ismail Kadare, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, oferece uma descrição viva do Kanun em um dos seus livros, Abril Despedaçado. A obra foi adaptada ao cinema pelo diretor brasileiro Walter Salles, substituindo as montanhas da Albânia pelo sertão nordestino, no filme de mesmo nome, de 2001.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Em busca do pub perfeito

“I’ve always thought that pubs are like songs; there’s one to suit every mood, and the great ones stay with you for ever.”*
Paul Moody

Toda lista acaba sendo arbitrária. Por que esses? Por que só dez? O que é perfeito para mim pode não ser para você e esta é a graça em relação aos pubs, pelo menos por aqui, em que existem cerca de 50 mil deles só no Reino Unido para escolher. Foi difícil selecionar, mas aí vão meus dez preferidos, não necessariamente nessa ordem..


The Alexandra Hotel
É o último pub entre o Centro e o iPro Stadium, o que naturalmente garantiria mesas cheias em dias de jogo do Derby County, antes ou depois da partida. Mas o The Alexandra Hotel é bem mais que isso. Todo dedicado à tradição ferroviária das East Midlands, tem até uma locomotiva a diesel original dos anos 60 no jardim dos fundos. No balcão, Ralf, um simpático gordinho de rabo de cavalo, conhece bem a freguesia e melhor ainda o que serve a ela – estão permanentemente à disposição seis Real Ales artesanais da Castle Rock Brewery, da vizinha Nottingham, além de seis a oito guest ales (ales convidadas), que variam.
Nos dias em que o Derby County joga em casa, um enorme placar conta as horas e minutos para o início da partida, para que nenhum torcedor em estado etílico mais avançado perca a noção do tempo. Mas se estiver realmente muito difícil ir para casa é possível ficar por ali mesmo, o pub dobra como hotel.
Onde: Siddals Road, 203 – Derby (Inglaterra)
www.alexandrahotelderby.co.uk


The Brewery Tap
Provavelmente o único pub com uma vista decente em Derby, é o lugar para passar horas observando os enormes gansos de pescoço negro disputando espaço com as atrevidas gaivotas na beira do rio Derwent. A razão para ir ao The Tap, porém, é mesmo a cerveja. Sempre estão à disposição do freguês pelo menos cinco ales artesanais da Derby Brewing Company, fora as convidadas, cobrindo os sete estilos clássicos na Inglaterra: blonde, amber, golden, ruby, bitter, stout e porter. Melhor ainda é a opção de pedir os Racks, cada um com três terços de pint à sua escolha, acompanhados de queijo para limpar o paladar.
Onde: Derwent Street, 1 – Derby (Inglaterra)
www.brewerytap-dbc.co.uk


The Brunswick Inn
Quem passa na porta não dá muita coisa por esse pub na rua da estação de trem, mas é só entrar pra ver que eles sabem o que estão fazendo. O ambiente é simples, o que importa é o que você encontra do outro lado do balcão: nada menos que 16 opções de Real Ales, incluindo cinco fabricadas na própria microcervejaria, que fica nos fundos. A competição é dura, mas me arrisco a dizer que é o melhor lugar para quem gosta de cerveja em Derby.
Onde: Railway Terrace, 1 – Derby (Inglaterra)
www.brunswickderby.co.uk


Mr. Grundy’s Tavern
Visitar o Mr. Grundy’s dá a sensação de ter atravessado um portal para um passado indefinido, que você começa a tatear observando os chapéus e capacetes pendurados sobre o balcão, as dezenas de retratos em preto e branco de estrelas de cinema do passado e até uma daquelas cabines vermelhas de telefone inglesas, de 1937. Entre as cervejas disponíveis, cinco de fabricação própria – todas da Mr. Grundy’s Brewery, com nomes que trazem referências à Primeira Guerra Mundial, como The Red Baron (O Barão Vermelho), 1914, Passchendaele ou Trenchfoot – além de outras ales convidadas. No inverno, quem chega cedo consegue uma mesa em frente à lareira. Cães são bem vindos.
Onde: Ashbourne Road, 32 – Derby (Inglaterra)
www.mrgrundystavern.info


The Babington Arms
Apesar de pertencer a uma Pubco (a Wetherspoon), o Babington Arms é um ponto fora da curva. Diferente de outros pubs controlados pelas Pub Companies, esse não só oferece bebidas das cervejarias artesanais como defende e tem o reconhecimento da CAMRA (Campaign for Real Ales, saiba mais no post “God save the pub”). Em março há até um festival de Real Ales, com 40 delas se revezando no balcão, a preços imbatíveis.
Além disso, a localização não poderia ser melhor, bem na avenida que desce (ou sobe, na volta) da minha casa para o Centro.
Onde: Babington Lane, 11 – Derby (Inglaterra)
www.jdwetherspoon.co.uk/home/pubs/the-babington-arms


Slain’s Castle
Ocupando todo o interior de uma antiga igreja gótica desativada, o Slain’s Castle é Um Drink no Inferno à espera da metamorfose final, ainda mais considerando a disposição alcoólica dos escoceses em um sábado à noite. Eu saí antes das dançarinas começarem a desenvolver caninos pontudos, mas estava claro que a transformação era iminente.
Onde: Belmont Street – Aberdeen (Escócia)
www.eerie-pubs.co.uk/slains-castle


Philharmonic
Onde mais é possível urinar em mictórios caprichosamente esculpidos em mármore? Na Inglaterra, pelo menos, esse é o único banheiro na lista do patrimônio histórico do país. O interior do Philharmonic foi desenhado pelos mesmos arquitetos que pensaram as cabines do Lusitânia, o incrível transatlântico da Cunard Line torpedeado pelos alemães durante a Primeira Guerra Mundial, deixando mais de 2.000 mortos. Dá para ficar horas admirando os detalhes em madeira do balcão, os mosaicos do piso, lustres, vitrais, a lareira...
Onde: Hope Street, 36 – Liverpool (Inglaterra)


The Bitle’s Bar
Em qualquer outro lugar as paredes listradas alternando um vermelho vivo e branco chamariam a atenção, mas no Bitle’s Bar elas são só a moldura para uma série de pinturas incríveis – dos Muppets aos líderes históricos do IRA (Irish Republican Army, o Exército Republicano Irlandês), acompanhados inexplicavelmente pelo lendário futebolista George Best.
A grande atração, porém, é a tela que traduz à perfeição um trecho do poema Digging (Cavando), do escritor irlandês ganhador do Nobel de Literatura Seamus Heaney, ele mesmo um frequentador do pub até sua morte, no ano passado. “By God, the old man could handle a spade. Just like his old man. Between my finger and my thumb the squat pen rests. I’ll dig with it” (Algo como “Por Deus, o velho homem podia manejar uma pá. Exatamente como o velho dele. Entre meu dedão e meu polegar a pena descansa. Eu cavarei com ela”).
Na Irlanda a tradição das ales é engarrafada e o Bitle’s tem uma excelente reserva de cervejas artesanais nas suas geladeiras, inclusive do interior da ilha.
Onde: Upper Church Lane, 70 – Belfast (Irlanda do Norte)


The Cobblestone
Enraizado há décadas em Smithfield, quase vizinho à antiga destilaria do whisky Jameson, o Cobblestone é o destino para escutar música folk irlandesa de verdade em Dublin. Nas noites de segunda a sexta-feira, os músicos – amadores e profissionais se misturam – simplesmente entram pela barulhenta porta da frente, encomendam um pint, ocupam as mesas reservadas só para eles e vão alternando suas performances. De vez em quando alguém da plateia se junta ao grupo, canta uma canção à capela ou declama um poema.
O pub tem uma razoável oferta de ales irlandesas em garrafa, mas na dúvida vá de Guinness mesmo, aqui se vem mais pela música do que pela cerveja.
Onde: King Street North, 77 – Dublin (Irlanda)
www.cobblestonepub.ie


Porterhouse
Em uma cidade em que a marca da principal cerveja é mais que uma atração turística, transformada em verdadeiro símbolo nacional, pouca gente quer saber da segunda colocada. Mas se você se esforçar para ir além da Guinness vai descobrir uma surpresa bastante agradável na Porterhouse. O pub central da segunda maior cervejaria de Dublin ocupa três andares de um casarão antigo, onde serve suas 11 variedades artesanais, incluindo a Oyster, uma stout que leva ostras frescas na receita durante a fermentação – prove, se não for vegetariano.
Onde: Nassau Street, 45 – Dublin (Irlanda)
www.porterhousebrewco.com/bars-dublin-central.php

“Eu sempre pensei que pubs são como músicas; há uma que se encaixa a cada estado de espírito, e as realmente boas permanecem com você para sempre”*
Paul Moody