quarta-feira, 19 de março de 2014

O relações públicas do Islã

Minaretes da Süleymaniye Mosque, de onde vem o chamado à oração
“Reconte no Livro como Maria se retirou das pessoas para um lugar ao leste e se manteve em isolamento deles. Nós mandamos a ela Nosso anjo, que se apresentou a ela como um homem adulto. Quando ela o viu, ela disse, ‘Eu busco refúgio de você no Deus misericordioso; (não chegue perto) se você teme o Senhor.’ ‘Eu sou apenas o mensageiro do seu Senhor’, ele respondeu. ‘Eu devo conceder a você o presente de um filho dotado de pureza.’ Ela disse, ‘Como posso eu ter um filho quando nenhum homem me tocou; e eu nunca fui incasta?’ (O anjo) respondeu, ‘Assim deve ser; seu Senhor diz, ‘Isso é fácil para Mim; e Nós devemos fazer dele um sinal para as pessoas e uma bênção, vinda de Nós. Isso foi decretado.’”
Maria, Alcorão, 19:23 (traduzido da versão em inglês)


Chego à Sultanahmet Mosque por volta das quatro de uma sexta-feira, logo após o término da prece do meio da tarde. Mais conhecida como Mesquita Azul por causa dos azulejos no seu interior, o templo é talvez o mais popular de Istambul e um dos principais destinos turísticos da Turquia, embora siga cumprindo normalmente o papel de casa de oração, e uma dos maiores do país. Já visitei outras mesquitas e conheço o procedimento: para os homens não muçulmanos, tirar os sapatos e estar decentemente vestido (nada de bermudas ou regatas). Ali, porém, há ainda uma entrada separada destinada a quem não veio para rezar.
Interior da Mesquita Azul
Os muçulmanos são convocados a render suas preces a Alá cinco vezes ao dia, quando soa do alto dos minaretes – uma ou mais torres que estão no ponto mais elevado do templo - o chamado do muezim para a oração. Não à toa, o minarete costuma ser mais alto do que os edifícios ao seu redor, para facilitar a difusão do chamado. O cântico ritmado se espalha pela cidade seis vezes, todos os dias: duas horas antes de o sol nascer, ao amanhecer, ao meio-dia, à tarde, ao pôr-do-sol e logo depois que a última luz do dia desaparece. Os horários não são fixos, variam ao longo do ano, de acordo com o movimento do sol.
Dentro da Mesquita Azul, com suas paredes cobertas pelos azulejos famosos e o chão todo acarpetado, um cercado de madeira separa os fiéis dos turistas e suas máquinas fotográficas, para preservar um pouco de ordem. Também por isso não são permitidas visitas durante os horários de oração. No canto esquerdo do cercado, porém, um sinal iluminado em letras garrafais, em inglês, chama minha atenção: Islamic Information Center Come In (Centro de Informação Islâmico Entre).
Eu me aproximo e me deparo com um convite, também em inglês, que traduzo: “Caro visitante, Bem vindo à Mesquita Sultanahmet. Você está em um dos maiores locais de oração do Islã, que é a segunda maior religião da humanidade. Portanto, nós consideramos nosso dever recebê-lo, se você quiser conhecer o Islã (...) Nós respeitamos opiniões diferentes. Nossos dois princípios do Alcorão, o Livro Sagrado do Islã, são ‘Não há obrigatoriedade em religião’ e ‘Acima de todo possuidor de conhecimento há um Conhecedor’. Assim, se você é um visitante Cristão, Judeu, Hindu, Ateu, Agnóstico, ou membro de outra religião, entre só para dizer olá, tenha uma conversa amigável conosco ou pegue algumas brochuras. Você também pode fazer perguntas, básicas ou avançadas. Tudo de graça. E você terá um amigo na Turquia. Obrigado por visitar.”
Islamic Information Center: "Come in"
Ultrapasso o cercado, ainda com meus sapatos nas mãos, abro a porta e entro. Sou recebido com um olhar amistoso por um homem barbado, vestindo uma túnica branca. Ele me convida a sentar e pergunta de onde venho, em inglês, respondendo com um sorriso algo surpreso ao ouvir Brasil.
Com planos de visitar uma Cisterna bizantina do século VI ainda naquele dia, peço desculpas e pergunto se estarão abertos no domingo. “Isso é uma mesquita, está aberta todos os dias”, responde, ainda sorrindo. Explico que na verdade quero saber sobre o Centro de Informação. Ouço que sim, e em seguida ele se apressa a me entregar um exemplar de bolso do Alcorão, um Guia para entender o Islã, um manual sobre o ritual de orações e mais dois ou três folhetos, tudo em inglês. Agradeço e prometo voltar no domingo.
Quando retorno, dois dias depois, pouco depois das duas da tarde, a Mesquita Azul está ainda mais cheia. Ainda do lado de fora, uma fila se forma em frente à porta dos visitantes, onde turistas se encolhem ao longo do muro lateral, na tentativa de escapar dos primeiros pingos da chuva que vem da Ásia, cruzando o Bósforo. Quando consigo entrar, vou direto à sala na lateral do cercado. Ao passar pela porta, encontro o sacerdote em meio a uma oração, rodeado por quatro homens. Ele levanta os olhos e faz um aceno para mim com a cabeça, sem interromper a reza, que entendo como um convite para entrar e sentar. A prece acaba, duas pessoas se despedem e saem – e eu me aproximo.
O imã da Mesquita Azul (esq.) em ação, dentro da sua salinha
Antes que eu possa me explicar, o imã Ishak diz se lembrar de mim, o brasileiro que esteve ali na sexta-feira e prometeu voltar no domingo. Começo perguntando sobre o centro de boas vindas, algo que eu, pelo menos, nunca vi em igreja cristã alguma. A explicação que se segue é quase poética. Ele diz que a maior importância daquela salinha é dar a chance aos visitantes de entender um pouco do Islã, para ir além de simplesmente admirar a arquitetura da mesquita. “Tirar os sapatos, entrar e só olhar os azulejos é como estar diante de um belo prato de comida, sentir o seu cheiro e não prová-lo”, compara.
Nesse ponto a conversa é interrompida pela entrada de um homem de traços ocidentais, descalço, com uma vasta cabeleira encaracolada. Em inglês, com um carregado sotaque italiano e sem muita delicadeza, ele interrompe meu papo com o imã. Quer saber como rezar na mesquita, mesmo não sendo muçulmano. Ishak olha para os pés do homem, encardidos e sem meias, e começa a explicar que, antes da oração, é preciso se limpar... Eu me contenho para não rir, enquanto o italiano ameaça perder a calma, perguntando se não poderia rezar sem se lavar.
O sacerdote explica que este é um preceito válido para os muçulmanos, mas que se ele quer rezar em um templo do Islã, seria interessante respeitar as duas formas de limpeza antes de ir à mesquita, e segue: “Após manter uma relação sexual ou quando ‘algo ruim’ acontece em um sonho, é preciso tomar um banho completo, deixando a água entrar e sair da boca por três vezes”. Se nada disso aconteceu, basta lavar o rosto, os pés, as mãos, as orelhas e enxaguar a boca. O italiano agradece, meio contrariado, e deixa a sala.
Maria e Jesus entre Maomé (esq.) e Alá (dir.), na Hagia Sophia
Aproveito a chance e retomo a conversação, para tirar uma dúvida antiga. Há uns anos me deparei com a novela do catalão Ildefonso Falcones, A Mão de Fátima, em que ele conta a saga de um jovem árabe na Andaluzia do século XVI. Entre suas aventuras, Hernando Ruiz, envolve-se com um grupo de religiosos muçulmanos que se arriscam a falsificar relíquias cristãs, em um esforço desesperado para aproximar as duas religiões, na tentativa de estabelecer uma convivência que evite a iminente expulsão dos mouros da Espanha. No romance histórico, o grande ponto em comum escolhido para tentar a intersecção entre o Cristianismo e o Islã é a fé em Maria.
Pergunto ao imã se de fato os muçulmanos acreditam nela e ele me confirma, acrescentando mais. Maria (Mariam para os islâmicos) é um dos maiores símbolos de virtude feminina no Islã e é citada diversas vezes no Alcorão - o livro sagrado para os muçulmanos (como no trecho no início do post) -, por ter se submetido a Alá sem questionamentos. Uma homenagem a ela está inscrita em toda e qualquer mesquita, e em um lugar de honra, o Mihrab – uma espécie de altar que indica a direção de Meca, para o qual os fiéis dirigem suas orações.
E não é só isso. Os muçulmanos acreditam também em Jesus (conhecido como Isa), embora de forma diferente dos cristãos. Para o Islã, o imã me explica, ele não é o Messias, o filho de Deus, “porque Alá não precisaria enviar um filho à terra, somos todos seus filhos”. Cristo é para eles mais um profeta, que teria tido suas palavras mal interpretadas e “adulteradas” por quem o ouviu.
Mihrab da Mesquita Azul (centro), onde fica a homenagem a Maria
Para quem imagina existir um conflito insuperável entre cristãos e muçulmanos, cristalizado por séculos de ódio e guerras religiosas pela Europa e reavivado pela onda de terrorismo e radicalismo ocidental nas últimas décadas, esse conjunto de informações pode surpreender. E o que dizer de uma mesquita em que a imagem de Maria, com o menino Jesus nos braços, convive com os símbolos de Alá e do Profeta Maomé – e em uma posição mais elevada do templo? Isso também está em Istambul, na Hagia Sophia, construída originalmente como uma igreja cristã bizantina em 537 D.C., transformada em templo do Islã em 1453, quando os otomanos tomaram Constantinopla e a transformaram em Istambul. Os conquistadores não apagaram o mosaico cristão, apenas acrescentaram os próprios sinais, na bela caligrafia arábica...
Depois de mais de uma hora de conversa, agradeço a atenção de Ishak e me despeço. Ele aperta minha mão e me entrega seu cartão, decorado com as graciosas formas de um dos azulejos presentes na Mesquita Azul. No pequeno pedaço de papel, além do seu nome completo e cargo em inglês ("Iman of the Blue Mosque"), consta o telefone do templo, um número de celular e um e-mail do Yahoo. Satisfeito, deixo a sala e me dirijo para a saída do templo, não sem antes me aproximar do Mihrab. Lá fora, enquanto visto meus sapatos, as nuvens sumiram e o sol brilha sobre Istambul.

Carreguei no YouTube um vídeo curto com o chamado para a oração do entardecer, na Süleymaniye Mosque: http://youtu.be/ZiNCWHIohRI

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